Na década de 70, o brasileiro com mais de 60 anos era, antes de tudo, um forte. Quem havia nascido no Brasil pobre e agrário da década de 10 e dos anos 20 tinha expectativa de vida de menos de 40 anos. Chegar aos 60, então, era quase um feito.

Para esses sessentões não havia alternativa a não ser os chinelos da aposentadoria, uma velhice inativa e cheia de dores pelo corpo. Era o mundo do piloto de avião Manoel Duarte, que trabalhando sob pressão intensa passou a sofrer de mal de Parkinson com apenas 40 anos. Uma geração depois, as diferenças são tantas que parecem separar duas eras. Jurandir, filho de Manoel, tem 58 anos e comanda sua empresa têxtil com pique de garotão. Fora do trabalho, adora pesca submarina, joga tênis e caminha. A pelada semanal com os amigos é sagrada. Duarte é um brasileiro que vê a velhice não como um castigo, mas como um novo período de vida.

O envelhecimento da população é um dos três grandes fenômenos brasileiros do fim do século XX - junto com a urbanização e a entrada das mulheres no mercado de trabalho. Hoje, 11% da população tem mais de 60 anos. Em 2020, serão 15%. Projeções da ONU mostram que, até 2025, a população idosa do Brasil terá acumulado o maior crescimento entre todos os países do mundo - 1.514% em 75 anos. É um fenômeno que costuma ser citado apenas quando se fala no caixa da Previdência Social. Mas também gera mudanças enormes na vida cotidiana das cidades e famílias.

Até recentemente o ganho de qualidade e expectativa de vida era principalmente das mulheres. As brasileiras que chegam aos 60 anos vivem em média outros 19 anos, contra 16 dos homens. Mas as mudanças de hábitos indicam que eles estão tirando essa diferença. "As brasileiras têm qualidade de vida melhor devido a diversos fatores, como menor consumo de álcool e tabaco, associados à prevenção mais constante de doenças como câncer", afirma o geriatra Renato Veras, diretor da Universidade Aberta da Terceira Idade, da Uerj. "Os homens, até recentemente, demoravam a pedir socorro."

A boa notícia é que esse socorro está sendo pedido cada vez mais rápido. "Há 20 anos, a população que buscava a geriatria tinha entre 60 e 80 anos. Quase sempre eram mulheres", conta o geriatra João Toniolo Neto, chefe da disciplina na Universidade Federal de São Paulo. "Hoje, recebo homens de 45 anos que vão espontaneamente tratar da saúde, antes da doença." É resultado das campanhas de prevenção, mas muito se deve ao exemplo das mulheres, orientadas desde a puberdade a ir regularmente aos consultórios. Só recentemente, os homens passaram a fazer check-ups regulares, principalmente pelo medo de um ataque do coração.

"Viver mais não quer dizer viver melhor. Quem não se cuidou não vai chegar bem aos 60", decreta José Luiz Telles de Almeida, coordenador do Núcleo de Estudos sobre Envelhecimento da Escola Nacional de Saúde Pública. Chegar bem aos 60 anos dá trabalho. E como. A diferença a favor dos atuais sessentões é que a ciência combate as doenças da idade com muito mais eficácia. Claro que não se pode ser ingênuo. O caminho rumo a uma velhice tranqüila é trilhado bem antes das primeiras rugas. E em que quantidade elas vão aparecer mais tarde depende do estilo de vida que se leva desde, no mínimo, o final da juventude.

Na faixa dos 60 anos, o organismo masculino sofre pesadas alterações. A mais evidente é o enfraquecimento. A massa muscular pode cair até 25% se o homem não fizer exercícios físicos constantes. "A vitalidade dos ossos cai 1% ao ano após os 60, e o teor de gordura no corpo aumenta em 30%", relata Luis Gustavo Russo, diretor da Sociedade de Endocrinologia e Metabologia do Rio de Janeiro e do Centro de Diagnóstico e Pesquisa da Osteoporose.

Mas, se o corpo padece, o que realmente assusta os homens com o passar do tempo é o fantasma da impotência. Há muito de mito nessa assombração. Pesquisas mostram que, em média, apenas metade dos homens realmente sofre queda no nível do hormônio testosterona. Nem todos sentem a diminuição do apetite sexual. Há ainda uma série de medicamentos com sucesso comprovado na melhora da ereção. Em todos os casos, um médico deve ser consultado.

Mas só a possibilidade de o homem continuar com a vida sexual aos 60 provocou uma revolução. "Os novos medicamentos transformaram a sexualidade", diz o geriatra Renato Veras. "A possibilidade de ter vida sexual plena assegura bem-estar." A falta de libido também pode ser tratada com a reposição hormonal, que leva à melhora da massa muscular, do desempenho físico, trata a osteoporose, aumenta a espessura e elasticidade da pele e, claro, combate a disfunção sexual. Só que, antes de se animar, um alerta: "A reposição hormonal só pode ser prescrita por especialistas para não causar efeitos colaterais na próstata", diz o endocrinologista Simão Lottemberg.

Se há unanimidade entre os especialistas é a de que a velhice saudável inclui visitas freqüentes ao médico e uma bateria de exames - alguns incômodos, mas necessários. O mais rejeitado é o exame anual de próstata, que deve ser feito a partir dos 40 anos. O câncer de próstata é o segundo mais comum entre os homens, depois do de pele. É também aos 40 que são recomendadas avaliações dos riscos familiares para obesidade, hipertensão, diabetes, infarto do miocárdio e artrose, além de medições de colesterol, gordura, açúcares e hormônios. É essa a última chamada para abandonar o fumo, o álcool em excesso, adotar uma alimentação balanceada e fazer exercícios físicos.

O efeito do tempo atinge em cheio a vaidade masculina. Os cabelos embranquecem ou caem e há risco de ganhar acessórios como óculos e dentadura. Mas avaliações regulares alertam para problemas de vista e o avanço na técnica de implante de dentes pode ser uma boa saída. A perda de auto-estima causada pela calvície já pode ser revertida com remédios para queda de cabelo. "Há bons tratamentos, mas, quanto mais precoce, melhor o resultado", revela o geriatra Toniolo.

À primeira vista, tantas mudanças orgânicas assustam. A boa notícia é que há atenuantes. As clínicas de estética oferecem de cremes com efeito hidratante contra olheiras a injeções que prometem maior firmeza à pele. O uso controlado de vitaminas e o hábito de se proteger do sol são essenciais. Para não ficar à mercê de produtos que prometem maravilhas, o homem deve combiná-los com vida regrada. "É absurda a diferença de independência entre um homem de 60 anos que tem atividade física e outro, da mesma idade, que não faz nada", alerta Toniolo.

E atividade física não se resume às academias. É fundamental manter desafios. O empresário Rudolf Höhn, de 63 anos, está aposentado mas continua em atividade. Ex-presidente da IBM Brasil, hoje preside uma empresa de consultoria e uma ONG que promove cursos para adolescentes de favelas. "Não precisaria mais trabalhar, mas só paro quando me pararem", afirma Höhn. Prova de que novas áreas se abriram para absorver um grupo etário que está em plena capacidade de trabalho. No Rio, a Universidade Aberta da Terceira Idade da Uerj oferece 125 cursos gratuitos por semestre. São 10 mil vagas por ano para aulas que vão de ginástica, línguas estrangeiras e alfabetização a informática, fotografia, cinema e poesia grega. Nunca é tarde para aprender.

agd2

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