Ter, 18 de Maio de 2010 18:37

IDOSOS,NUM MUNDO PERDIDO

Escrito por Gilberto Dalmaso
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depressao3idade

Idosos, num mundo perdido

 

Peguei como mote para este texto, as palavras de um colega da Blogosfera: a maior hipocrisia da nossa sociedade é a utilização de palavras sem que estas tenham qualquer significado para ela, não passando de simples rótulos para alívio de consciências vazias da noção do dever.

Refiro-me à Solidariedade e à Fraternidade.

Com a mesma fonte inspiração, achei oportuno continuar a denunciar o mundo egoísta em que vivemos.

Como poderemos ter esperança na Fraternidade e na Solidariedade, quando parte das pessoas nem a praticam com os que lhe são mais chegados parentalmente ?

Refiro-me aos idosos.

Muitos dos idosos, considerados por alguns o excedente inútil da sociedade, doentes, sem recursos, sem amparo, sem carinho, sem amor, abandonados à sua sorte feita de tempo para morrer, como se de leprosos se tratassem, na solidão ou amontoados numa espécie de leprosaria, antecâmara da morte, são um dos retratos vivos da sociedade egoísta em que vivemos.

Ser velho nas antigas civilizações era ser o patriarca ou a matriarca, o sábio ou a sábia, o respeitado ou a respeitada, o venerado ou a venerada. A sagacidade da idade conferia-lhes um estatuto de sapiência, indispensável à sociedade onde estavam inseridos.

Este estatuto de condição social perdurou durante séculos, mesmo milenios, vindo a perder-se ao ser subalternizado gradualmente por novos valores e conceitos civilizacionais, especialmente a partir do advento da industrialização, altura em que por necessidade desta iniciou-se o consumismo.

O consumismo passou a ser o novo paradigma das sociedades modernas, em especial das ocidentais, que passaram a viver em função da compra, num frenesi entre a oferta e o querer ter mais.

O querer ter mais implica recursos, e como por vezes os recursos são insuficientes para alimentar o querer, tornou-se necessário fazer opções, e dessas opções os idosos são muitas vezes preteridos, parcial ou totalmente.

A falta de recursos coadjuvada com perda de amor ao progenitor idoso, leva a considerá-lo como um incomodo fardo que a família não quer suportar. Nestas circunstâncias, especialmente se o idoso não tem qualquer fonte de rendimento, passa a ser encarado como o grão de areia na engrenagem familiar.

O amor filial e familiar que lhe é devido é substituído pela indiferença, acabando na saturação se não quando nos maus tratos, quando é completamente impossível despejá-los na leprosaria. A leprosaria em muitos casos é substituída pelo abandono nos hospitais onde ficam definitivamente esquecidos, como se a sua existência tivesse terminado com a sua entrada ali.

Também assistimos aos que têm recursos para cuidar dos seus idosos comportamentos idênticos, como se fosse possível substituir o calor do amor filial, pelo frio e mercantil aconchego de ótimos lares, como se de gaiolas douradas se tratassem. Já não é falta de recursos que faz despertar a rejeição, mas o egoísmo social.

É horrível ver como estas frágeis criaturas são muitas vezes tratadas, cidadãos sem Carta de Direitos, sujeitos ao livre arbítrio daqueles por quem tanto fizeram e lutaram na vida.

Não isento de responsabilidades o Estado na assistência digna aos idosos sem família, que tende cada vez mais a esquecê-los nas suas políticas sociais recursos .Não é julgar o Estado o objetivo do meu texto, será noutro, mas ajuizar e condenar o comportamento de certos humanos em relação aos seus idosos.

Sejam quais forem as razões à rejeição dos idosos, todas são manifestação de como foi possível o egoísmo tornar tão desumana a nossa sociedade.

Mal tratados por uns, rejeitados por outros, grande parte dos nossos idosos vegetam na angustia da solidão os seus últimos anos de vida, como se de um castigo se tratasse, por terem sido um dia, os progenitores generosos das desalmadas criaturas que hoje os mal tratam ou rejeitam.

Ninguém deve esquecer que os novos de hoje serão os idosos de amanhã.

AUGUSTO DIAS LISBOA

GILBERTO DALMASO

 

 

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